15 de ago de 2013

Sempre há novidade na mais antiga paisagem

A caminho de novas descobertas.
Sempre há novidade na mais antiga paisagem.
Aquela construção já é um prédio.
A casa azul clarinha, de muro baixo com pé de romã no jardim, subiu e agora é cinza.
Hibiscos de todas as cores enfeitam e se confundem com pés de manacás.
A cor do meu amor também mudou.

7 de ago de 2013

As pessoas têm passado demais
Existe aquela sensação. Aquele de chegar num lugar desconhecido, mas que você desejou estar. É sensação sensorial, é sentimento, é a maior sede do peixe, que o único que se quer é imergir, ainda que seja ficar quietinho, olhando o mar novo passar, estando nele. É acordar em outra cama, outro tempo, outro céu, as vezes, outra língua. A estranha sensação de ser estrangeiro de você mesmo. Só sabe o que é voltar quem já foi. E ir é bom
A gente já nasceu um para o outro com a presença e a ausência. 
Já soletramos saudade desde o principio fim de nós dois.

25 de mai de 2013

O CORAÇÃO PESA 300 GRAMAS


Sim, o filme Elena. Lindo na sua maior tristeza. Lindo no que te dilacera e te faz entender que beleza não está somente nas histórias com finais felizes. Bem, essa história de certa forma teve um feliz final em forma de filme.
Arrebatador, ainda que eu evite a adjetivar qualquer imagem vista alí. Por agora vai ser inevitável. Enfim, tento em algumas linhas, que por necessidade, quis escrever assim que saí da sala de cinema e que após alguns dias me embaralharam a cabeça. Tudo ainda vai se ajeitando dentro. Sensação física de entranha. Que agita e acalma na mesma proporção. Alí não podemos dizer que só um filme. É um vida, compartilhada, generosamente partilhada. A primeira sensação desde as primeiras cenas foi a de agradecimento por gesto tão intimo,. Intimo e amorosamente violento. Assim, ofertados. Boa parte da arte é isso mesmo, uma intimidade compartilhada. Alguns tocam outros se deixam tocar. E me tocou. Nessa comunicação particular possível.

A memória materializada, querendo ganhar outras formas por uma certa urgência. De vida e de morte. De começo e de partida. Ficam várias indagações, questões e vinte mil reticências que não se transformarão em nada mais que espaços que tocaram e esvaziaram. Quase uma respiração.

A cena das mulheres floridas boiando num rio, é capaz de te levar a um aquietar e desaquietar. Nada é tão leve. Me lembrou a Ofélia Shakespeariana, que num mergulho, flutua sem vida. De vida e de dança, de memória, de intimidade de VHS, de recordação, que por sua vez é representada, no lugar da infância, ‘tentando’ regressar àquele então, quando não se pode regressar a esse lugar efetivamente, assim, o constrói a partir de recordações, por uma representação. A luz disso, lembro de um trecho de Paul Ricouer, que me soa quase como um poema “A imagem-recordação (eikôn) é a presença da ausência, é a presença na alma do homem de uma coisa ausente”. O filme é também, a cumplicidade de irmãs, de solidão, de sotaque que te faz mais intimo. Disso tudo eu vi Elena.

“Solidão é gente demais.” (Guimarães Rosa)

Maria Elisa De Macedo – Outono de 2013.









16 de mai de 2013

EU ACREDITO NOS ENCONTROS



Não fosse essa afirmação tão obvia, não teria sentido escrever sobre os encontros. O faço constantemente por uma questão de beleza. Seja numa esquina, em café, em um bar, numa fila ou num sonho. Os encontros estão aí, como uma linha invisível que insiste em se conectar.

Quando criança, eu imaginava que ao morrer, em vez de céu, Alguém nos mostraria o sentido da vida que foi, em um grande desenho, desses que formam um figura a partir dos pontinhos que se ligam. Ao longo da vida, os desenhos foram muitos. Hoje, vejo em uma exposição mais um encontro materializado. Com um nome um pouco hippie, “Imã cósmico” (aqui, sem o menor julgamento do que isso possa ser), vejo arte ligar pontos. Uma linha junta e des-junta. Duas cabeças, dois ou mais corações, levam ao olhar, emoção, solidão, parceria, beleza. Estética e técnica.

Duas amigas que se encontraram certa vez e fizeram disso, em viagens por terra e mar, arte. Cadeiras opostas, vaso com flor seca, estampas múltiplas e desenhos. Além de palavras que intensificam que o ir é mais importante que o destino final. E um criado não tão mudo, cheio de postais, que pulsava a necessidade de partilhar. E a exposição “Imã cósmico” que teve sua estreia no projeto Domingo, em Campinas, no último dia 12 de maio, mostrou isso. Aliás, quem mostrou, foram as artistas Carolina Cherubini e Erika Dantas. Cada uma com um traço. Cada uma com uma linha feita por lã, grafite ou uma samambaia, expressaram a natureza do encontro com cor ou sem cor nenhuma. Preto ou branco seria sem cor? Um céu cinza é um dia sem colorido? A arte e o olhar dizem que não. Há cor.

Cor, em sua etimologia é coração. Recordar então, é voltar ao coração. E em qualquer lugar do mundo, qualquer geografia, seio, pé ou cabeça, alguma coisa já está ali, conectada. Sejam elas com outros, sempre serão elas juntas, com cor.


Maria Elisa De Macedo
Maio de 2013 - Após vários encontros e esperando sem esperar os que virão.

14 de dez de 2012

Entre pasos, tropezos y una valija llena de ternura

Hay un regreso. Hay un encontrarse. Con los tuyos. Con vos mísmo.
Hay un solo boleto de ida.

Hubieron cinco direcciones de casas.  Todas las líneas de subte.
Un numero de teléfono. Dieciocho materias cursadas. Un par de bares preferidos. Más de docenas de conciertos, cines y teatro.
No mucho llanto. Mucho aliento. Dos años de risas.
Un numero de documento nacional. 
Fueron ocho estaciones muy bien vividas.

Me fuí cuando todo era lindo. Mísmo con eso, fuí. 
Entrando en la oscuridad, donde yo mísma tenía que prender la luz a cada paso. Pero, me se prenderan las velas también.  
Sin español, sin conocidos, sin vivienda.
Ahora con todo eso y otras muchas cosas más, regreso sin excesos. Lo justo!
Vuelto a converterme en un ser sin la condición de estar de pasaje. O no.

Qué es la vida que no gran ciclo, un gran pasaje?

No banco el discurso de regresos y despedidas definitivas.
Que venga los Buenos Horizontes. Y viva la mariposa!



4 de dez de 2012

Tanto Amar

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

[Tanto mar. Chico Buarque]


22 de jul de 2012


E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível.


Albert Camus

22 de fev de 2012


fim é um novo caminho.

20 de jan de 2012

Um grito, um ai...e um arrepio n'alma

Eu escrevia de lá para cá. Agora daqui, escrevo também. Não só para as pessoas que deixei lá, mas as de aqui também. E para esse baú de memória ambulante que tento ser.

Mas o caso não é sobre nenhuma manifestação que entrei, uma história no metrô, uma gafe no supermercado. Fui mais pra lá. Mais para cá na verdade. Não sou bairrista, tampouco tornei-me uma agora. Fato é, que com minha mudança geográfica para outro país, percebi o quão mineira sou. E gosto mesmo de sê-la.

Acho ainda que estou cada vez mais mineira. Notei isso ainda em Buenos Aires, nos "apetrechos" que guardo em casa como uma garrafa de cachaça para as visitas, um pedaço de goiabada-cascão e um queijo-minas e até o cigarro de palha guardado na estante. Um olho aberto outro fechado, uma amorosidade e um amor por conversar em qualquer fila, um jeito desconfiado não medroso, uma casa cheia de amigos e uma mesa recheada de quitutes. Sou filha de uma paraibana e um paulista que se encontraram na Belo Horizonte e por aqui fizeram morada, laços e três filhos mineiros. Amém por ser fruto disso. E disso tudo sai uma alegria de ver da janela de casa a Serra do Curral, entender o que é comer queijo com doce-leite (sim, nós temos!), abacaxi no palito, ficar alegre igual criança de entender um outro mineiro falando, saber o que é Ponta de Areia e o significado infindável do que pode ser um 'trem'.

Não, não sou bairrista. Talvez essa tenha sido uma ode ao Ser Mineiro. Ainda mais porque amanheci com a inspirada senhora minha mãe que me presenteou sonoramente logo de manhã com a voz Beto, do Milton, do Tadeu...me cantando toda essa mineiridade.



27 de out de 2011

Os dois na minha paisagem


Ali estão os dois passarinhos. Em frente a minha janela, apoiados em um fio do poste, como não poderia deixar de ser. Não param de se beijar. Um bica o outro como se não houvesse amanhã. Ela vira a cara para um lado tentando ver uma outra paisagem. Ele faz o mesmo e vira-se para o lado oposto. Ambos vêem outros quadros. Voltam e se beijam por "horas". Nunca dois passarinhos, um casal, ficaram tanto tempo juntos em um fio. Se bicam carinhosamente, roçam o pescoço um no outro. Se distanciam e se aproximam de novo. Um caga. Mas isso é insignificante nessa relação. E por mais um tempo infindável ficam parados olhando o vento passar sobre eles. Sem conversar, beijar, roçar. Se bicam mais uma vez e um voa. Não sei se ele ou ela. Depois voa o segundo. Viveram um grande amor. Aqui debaixo dos meus olhos.

6 de out de 2011

Manual de etiqueta no cinema ou "Boas maneiras para o bem coletivo no cinema:

Dica 1: Comer pipoca e afins é uma delícia...em casa (ou no multiplex em uma animação, até vai...). Muito incômodo ouvir mastigação alheia, latinha de refrigerante e todo o seu processo durante o filme.

Dica 2: Já não ficou claro que TODOS os celulares tem a função 'silencioso' e ela é para ser ativada durante a sessão de cinema, teatro etc? Pelo amor do pai! Atender telefone no meio do filme e dizer baixinho como se ninguém estivesse percebendo, não dá! "Não, posso falar sim. Diz!". Médicos e urgências são outro assunto. Mas acho que 1% de uma sala seja indispensável.


Dica 3: Conversar durante o filme. Péssimo! Um comentário aqui outro acolá não faz tão mal, mas de vez em NUNCA, né?! E quando em uma cena mais tensa, onde todos nós, no nosso âmago imaginamos que algo poderá acontecer nos próximos segundos (e isso diz respeito somente a nós mesmos e à nossa expectativa), externalizá-la com um “ixi”, “nó”, “iii” ou qualquer suspiro do tipo, é chato. Inconveniente!


Dica 4: Quase uma repetição da dica 1, mas vale-se pelo diferencial do barulho. Abrir pacotinho de bala, barrinha de cereal, chicletes, bombom. Pra quê? O bafo de fome naquele momento não vai incomodar mais que o tal barulho. Curar nervosismo de outros jeitos (ou fome) em outros momentos não é uma sugestão descabida. Não se morre por esperar algumas horinhas para se deliciar com alguma guloseima.


Dica 5: Beijar. Não foi não é e nunca será ruim. Mas se agarrar na sala do cinema freneticamente...humm...bola fora também, né? Demonstrações de carinhos são bem vindas e apreciáveis. Excessos são dispensáveis NESTE momento. Seja qual for o gênero do filme.


Essa partilha de opiniões é mais que um discurso de achismos. Ter bom senso é muito bem vindo e é muito ruim achar chato viver em coletivo, porque esse coletivo vive um individualismo sem tamanho. Atitudes como essa que já vi/ouvi (e tem mais casos aterrorizantes na lista) e imagino que muitos tenham passado algo parecido, me fazem ter desânimo de ir ao cinema, que é uma das coisas mais legais que existe.



23 de ago de 2011

COM CHORO E VELA

Eu choro. Choro mesmo. 
Choro de falar de alguém querido. 
Choro ao falar de algum querido em público. 
Choro quando falam de mim na frente de muita gente. 
Choro ao contar uma decisão. Quando é assim, faço com que não vejam.

Já chorei de saudade algumas vezes. 
Chorei no meio da multidão - ou porque tinha a certeza dramática que ia ser pisoteada ou porque me senti sozinha naquilo tudo ou porque queria estar sozinha. 
Choro sempre ao ver programas de tv quando familias se reencontram (o fazem para isso mesmo, e eu caio).

Choro com o fim das relações, para mim, pequenas mortes. 
E morte sempre dói e vira choro. (Alguns hão de negar essa afirmação). 
Choro quando tenho vontade de sorrir e sorrio quando tenho vontade chorar. 
E tanto riso, pode ser nervosismo e que acaba em choro. 
E no meio do chororô, da tristeza, é possível que comece a gargalhar lembrando, já fazendo piada, da "desventura" da vida.

E na maioria das vezes, choro de tanto rir. 
Choro com boas notícias. 
Choro com meus impulsos, obviamente, involuntários, que me deixam desequilibrada e não me reconheço. 
Seguro a onda do choro alheio. 
Falo que choro quando na verdade não chorei...mas no fundo queria ter chorado. 
Choro quando caio e machuco. De susto. 
Aprendi por obrigação que não se pode chorar antes de dormir - acordamos com uma cara horrível. 
Choro com as dores do mundo. 
Choro em um filme bom. 
Choro com as boas ideias anotadas em imagens. 
Continuo me emocionando e enchendo os olhos de lágrimas com música verdadeira. E com torcida no estádio. Enfim, com uma massa em uníssono.

Chorei. 
Choro o choro. 
De qualquer modo, é bom deixar claro que não choro por qualquer coisa.

15 de jun de 2011

“Minha irmã,

não perca de vista o seu ponto de partida. Conserve o que você tem; faça o que está fazendo e não o deixe. Em rápida corrida, confiante e alegre, avance com cuidado, com passo ligeiro e pés seguros, de modo que seus passos nem recolham a poeira. Não consinta com nada que queira afastá-la nesse propósito, ou que seja tropeço no caminho”.

(2ª Carta de Santa Clara de Assis a Santa Inês de Praga).

14 de mai de 2011

Buenos Aires - Musical

Talvez eu nunca tenha visto um lugar com tanta música nas ruas. Principalmente no microcentro, tem um músico ou uma banda inteira tocando em cada esquina. E de todos os tipos. Um grupo meio rastafari na manhã de anteontem se apresentava entre as várias bugingangas da Calle Florida. Um flautista dentro me metrô, encostado na porta, tocava e depois passava sua tôca de lã. Um grupo de jovens se jogava no jazz. Um menina tocava no violino tangos lindos no corredor da estação. Assim, estão em muitos lugares daqui. Sozinhos, em trio ou em grupos, os músicos enfrentam as ruas, os passeios, no frio ou não. Musicavelmente encantador. E surpreendente. Pelo menos para mim.

Acolher a ternura

Chegando em “casa” hoje, Sebastián me pergunta como foi o dia. Eu respondo que foi bom, mas que ainda não encontrara casa para morar. E ele responde: “Tenés que decir que el día fue bueno, más estoy en casa. Nos tenemos. Animate, Maria."

14 de mar de 2011

Tipo!

"Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e depois dançar, na chuva quando a chuva vem..."*





*Marcelo Jeneci/Chico Cesar

18 de dez de 2010

Hindi Zahra

Várias músicas são lindas. Várias, necessárias. Essa é um presente. Um espelho da minha alma. A melhor descrição, que nunca achei que poderia existir, mas essa música é a minha cara. Do inicio ao fim.