Buenos Aires, 5 de junho de 2011.
é...um mês de vida em Buenos Aires. E definitivamente passa rápido. A rotina já me consome 65% do meu dia. As aulas de mestrado já não espantam tanto como na primeira semana. Um amigo aqui, outro acolá, discutindo sobre as aulas e a vida no café ao lado. O curso de espanhol segue de vento em polpa. Colegas queridos, professoras ótimas. E diariamente, sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia, tenho aprendido a viver em Buenos Aires. Minhas “aulas” com os amigos daqui deixam minhas professoras de cabelo em pé.
A vida aqui é de aventura delicada. Arriscar é mudar o passo, equilibrar o peso das coisas, arriscar falar um pouco mais a cada dia, andar, se perder e encontrar. Dançar certo num dia e aquietar-se no outro.
O frio continua (ontem a noite era de 6 graus), mas meu corpo parece ter se acostumado um pouco. Já não me "mata", nem me prende em casa. Consigo enfrentar as ruas. Cada dia é um passinho diferente...para o novo. Ando por outras calçadas, arrisco novos trajetos e descubro mais uma coisa nova. Já tenho o melhor lugar para comer empadas, já elegi meu restaurante diário e meu supermercado predileto. A busca por uma casa permanece firme e forte. Não é tão fácil como pensava, e talvez, mais difícil como haviam me dito quem por aqui passou. Mas vamo que vamo e em breve acontecerá.
Comemorei com os Argentinos, talvez a data mais especial para eles: o 25 de Maio. Foi nessa data que em 1810, os argentinos botaram para correr os espanhóis. Talvez essa seja a festa mais importante para eles. A avenida de Mayo é a mais enfeitada. Toda a cidade e muitos carros estão com suas bandeiras, as pessoas com os broches e por aí vai. Meu primeiro feriado na terra de San Martin. Um grande show aconteceu na Praza de Mayo e um público gigante ficou até meia-noite, num frio, aproveitando a comemoração. Locro, pastelitos são alguns dos comes tradicionais do dia. Todos só falam nisso. Locro é algo como um guisado. E pastelito, é um doce tipico. Porém, só vi nesse dia mesmo. Foi interessante ver esse tipo de celebração. Nunca tinha visto isso na vida. Faixas e mais faixas, muitos uruguaios também, enfim, o país em festa.
Nesse um mês também recebi minha primeira visita - Patrícia e Rosalva vieram e foi lindo! Batemos perna até e encontramos curiosamente com um mineiro na sorveteria, e depois no cemitério da Recoleta e depois da Praça das Nações Unidas. Por aqui, já encontrei também amigos de amigos de BH, ainda não conheci Valeria e Norma pessoalmente, conheci Lara, mais uma baiana (mais uma, porque no meu curso de espanhol, tem mais dois)por aqui e que, claro, temos pelos menos meia dúzia de pessoas em comum, que essas, por sua vez, estão espalhadas no mundo também.
Os casos (ora, cômicos) se multiplicam todos os dias. Ontem, por exemplo, um tanto de coisa escorregou das minhas mãos e o lugar que estava com um tanto de gringo, ninguém me ajudou. E nessa hora, gritei em português “Ah que bom que todo ajuda!”. Nesse momento, todos se levantaram e começaram a catar minhas coisas caídas. Obvio que minha cara foi no chão, ri (por dentro) e vi que o português ou minha ira pode ser universal. E outro caso, mais sério é: quando vierem para cá, não digam cajetas (achando que estão falando o diminutivo de caixas), acabô (quando quiser que algo terminou) e tampouco chame uma mulher de gata. Ah, e não pergunte onde está uma concha para pegar lentilhas ou o guisado. E meninas, saibam o que é um xamuchero (chamuyero).
Voltando. Ando levando mesmo uma vida portenha. Essa semana, por exemplo, fui ao hospital sozinha. Meu pé que deu uma zicada, foi levado ao médico para fazer uma consulta. Lá vamos nós. Deu pra conversar com o médico – meio sério no inicio. Fiz uma radiografia e o resultado: ligamentos ainda continuam fracos e de tanto eu andar e correr. Por isso algumas dorzinhas e a falta de firmeza. O frio e a umidade "agravam" a sensação de que ele pedia ajuda. Enfim, um antiinflamatório e uma bota ortopédica para imobilizar o dito cujo. Três semanas. Quase morri. Os olhos encheram d'água. “Não é possível. Como vou ficar andando com essa bota, tendo tanta coisa para fazer, casa para procurar, aulas para ir, escadas para subir, metrô para pegar?”, era só o que pensava. Mas por fim me acalmei. Tudo vai ficar bem. Dá para continuar minha vida normal. E a bota é para isso mesmo, o pé fica imobilizado, enquanto faço as coisas. E ainda bem que descobri a tempo, antes que virasse o pé mais uma dezena de vezes igual vinha acontecendo. Buenas, obrigada, Vida, mais uma vez. E uma das mágicas que acontecem nesse lugar. A bota aqui custa uma fortuna: 450 Pesos. Sebastian, o anjo, e que trabalha aqui, sabendo do meu caso, ligou para o irmão dele que trabalha com produtos ortopédicos. Conclusão: me emprestou a bota. E cá estou com meu novo acessório. E no fundo foi importante ter passado por essa lenga-lenga de hospital (sem gravidade) e me virar em outra língua. rs...
Os portenhos me surpreendem a cada dia. Amáveis na maioria do tempo. Já contei que um aqui já me apelidou de Tango? Porque me acha dramática. rs...vê se pode?! Eu me pergunto: como? Eles são os mais, os Reis.
Meu castelhano vai indo bem. Já começo a contar os causos em espanhol. E todos entendem. Coisas pequerninas, piadinhas, jeitos, e eles entendem. Dia desses fui explicar para o povo aqui a brincadeira que tinha no programa do Sérgio Malandro – em que a pessoa/criança, em uma cabine gritava sim ou não, em troca de um prêmio bom ou ruim. Hahaha.
Não, não vou escrever em castelhano. Vamos nos ater a língua que nos é comum. Se por um lado estou indo bem com a língua hispânica, com as dos ianques nem tanto. O mínimo de inglês que sabia, hoje falo igual ao Tarzan. Não sei nada, não lembro o passado de "speak". rs...uma maravilha. Meu cérebro só capta um idioma por vez. Não me peça para falar três línguas de uma vez. Ou seja, o albergue para mim é literalmente uma Torre de Babel. Well, me despeço por aqui. Au revoir!
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